Desde criança o sofrimento lhe fazia doerem os dedos. No auge da angústia, da tristeza, da decepção, quando a dor não cabia-lhe mais no peito, esparramava-se pelo corpo e lhe doíam os dedos, que ela apertava, acarinhava, protegia-os nos bolsos, enrolava-os na saia, na curva dos braços cruzados.
Esperou por dias e dias muito tempo e inventou desculpas para justificar com nobreza uma possível ausência a contra-gosto, elocubrando teses, justificativas, hipóteses improváveis. Pôs espuma contra o fio das evidências, disfarçou o descaso com mais uma mão de condescendência. E então aconteceu.
Encontraram-se na rua, por acaso. Ela numa calçada, ele na outra. Coração na boca, sentia a pulsação no rosto, nas pernas, nas mãos, peito aos coices. Antecipou mentalmente a cena antes que ele a visse: os olhares se encontrariam no meio do caminho, ele hesitaria meio segundo até acreditar que era mesmo ela, sorriria um sorriso doce e ao mesmo tempo indecente que não se abre e caminharia lentamente a seu encontro, cúmplice e aliviado por não terem se perdido. Esperou.
Ele levantou a cabeça e virou depressa. Atravessou a rua, entrou no carro e partiu. Partiu. Partiu-se. Se partiu. Se partiram. Partiram-se. Em mil pedaços.
E ela enfiou as mãos nos bolsos.

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