domingo, 11 de julho de 2010

Saber esperar


Saber espe­rar é algo tão difí­cil, que os mai­o­res escri­to­res não des­de­nha­ram fazer disso um tema de suas cri­a­ções. Assim fize­ram Sha­kes­pe­are em Otelo e Sófo­cles em Ajax; se este tivesse dei­xado o sen­ti­mento esfriar por um dia ape­nas, seu sui­cí­dio já não lhe teria pare­cido neces­sá­rio, como indica a fala do orá­culo; pro­va­vel­mente teria zom­bado das ter­rí­veis insi­nu­a­ções da vai­dade ferida e teria dito a si mesmo: quem, no meu lugar, já não tomou unia ove­lha por um herói? será uma coisa tão mons­tru­osa? Pelo con­trá­rio, é algo humano e comum; dessa forma Ajax pode­ria se con­so­lar. A pai­xão não quer espe­rar; o trá­gico na vida de gran­des homens está, freqüen­te­mente, não no seu con­flito com a época e a bai­xeza de seus seme­lhan­tes, mas na sua inca­pa­ci­dade de adiar por um ou dois anos a sua obra; eles não sabem espe­rar. — Em todos os due­los, os ami­gos que dão con­se­lhos devem veri­fi­car ape­nas uma coisa: se as pes­soas envol­vi­das podem espe­rar; se este não for o caso, um duelo é razoá­vel, pois cada um diz a si mesmo: “Ou eu con­ti­nuo a viver, e então ele deve mor­rer ime­di­a­ta­mente, ou o con­trá­rio”. Em tal caso, espe­rar sig­ni­fi­ca­ria sofrer por muito tempo ainda o hor­rendo mar­tí­rio da honra ferida, diante de quem a feriu; o que pode cons­ti­tuir mais sofri­mento do que o que vale a pró­pria vida.
Fri­e­drich Nietzs­che, livro “Humano, dema­si­ado humano”

Nenhum comentário:

Acima de tudo, seja feliz!

Acima de tudo, seja feliz!